Oficinas Grupo Quatro a Zero

Projeto de Workshop

A referência central do Quatro a Zero é o choro. O grupo aprofunda-se na linguagem dessa rica tradição musical ao mesmo tempo em que realiza um alargamento das fronteiras do gênero.

Música instrumental essencialmente brasileira e uma das mais importantes manifestações musicais do país, o choro já acumula, desde seus primórdios no Rio de Janeiro, aproximadamente 150 anos de história. Personagens como Joaquin Calado, Chiquinha Gonzaga e Anacleto de Medeiros ajudaram a consolidá-lo como gênero. O seu desenvolvimento não demorou a culminar em uma linguagem musical com instrumentação, forma, harmonia, ritmo e fraseado melódico bastante definidos.

Em seguida, músicos como Pixinguinha, Jacob do Bandolim e Garoto continuaram a desenvolver, compor, enfim, a criar e recriar sobre o gênero. A partir daí, a cada nova geração de músicos, foram surgindo vertentes que variam desde a formação instrumental do gênero até a sua concepção como manifestação artística. Regionais tradicionais, grupos de câmara, grandes e pequenas orquestras, solistas dos mais variados instrumentos e até grupos de rock incorporaram o choro ao seu repertório.

Ao mesmo tempo em que aparecem essas diversas maneiras de pensar o choro, emerge também a tendência a um conservadorismo extremado que rejeita qualquer mudança e que define como legítimo apenas o choro interpretado pelo regional tradicional, com os arranjos idênticos aos originais, reprovando qualquer forma de influência que não a que consideram genuinamente brasileira ou a proveniente da música erudita européia. Essa atitude, ao mesmo tempo em que conduz os novos músicos a conhecer a origem do gênero, leva-os à abdicação de uma infinidade de possíveis releituras e, em última instância, à restrição de sua criatividade.

No entanto, sabe-se que mesmo a origem do choro se deu de uma miscigenação entre a música européia – gêneros de dança como polca, schottish e valsa – que chegavam ao Brasil, e elementos musicais dos negros escravos – o lundu. É também conhecido que compositores e intérpretes considerados tradicionais fizeram uso de timbres não convencionais – basta recorrer ao Sexteto de Radamés, que interpretava choros com uma formação inusitada (dois pianos, acordeom, baixo acústico, guitarra e bateria) ou ao disco “Som Pixinguinha”, onde se ouve, entre outras ousadias, a guitarra distorcida de Zé Menezes. Em outros casos, os próprios elementos musicais foram livremente alterados: veja-se a obra de Garoto, em que os caminhos harmônicos são claramente influenciados pela música norte-americana.

O Quatro a Zero coloca em questão esta tendência ao conservadorismo e propõe uma revisão de conceitos, ao apresentar uma leitura pessoal do choro, utilizando-se para isso de uma formação instrumental diferenciada (baixo elétrico, guitarra, bateria e piano). No entanto, essa postura progressista não é dissociada da reverência aos grandes mestres do gênero – tem como fundamento um amplo conhecimento dos elementos que caracterizam este gênero musical.

Vários estudiosos da contemporaneidade (de maneira especial, Stuart Hall) apontam que o fenômeno da globalização age no sentido de proporcionar uma homogeneização das culturas ao redor do mundo. Junto a essa tendência, ocorre outra, antagônica: as culturas locais, como uma resposta ao processo de imposição da informação cultural global, são reforçadas – alguns grupos sociais assumem uma postura defensiva e retomam culturas regionais tradicionais. Há, ainda, uma terceira tendência, dialética: a hibridização das culturas – nesse caso, artistas promovem o encontro das culturas estrangeiras e das raízes regionais, produzindo formas culturais novas.

O Quatro a Zero se alinha a essa terceira tendência, bastante presente na arte contemporânea: a releitura de culturas regionais tradicionais, no encontro com a cultura global. No caso específico do grupo, o choro (gênero instrumental brasileiro que acumula um século e meio de história) é a base das pesquisas que resultam em sua música. No entanto, os músicos se permitem, em suas composições e arranjos, deixar permear pelas informações de outros universos musicais, mesmo que estrangeiros, que também lhes interessam (sobretudo o jazz e a música de concerto, mas também o rock). Nesse processo, novos instrumentos, novos caminhos harmônicos e um uso diferente da improvisação são incorporados ao gênero. O resultado é uma música original.

Ao mesmo tempo, o quarteto se posiciona de maneira crítica a outra tendência presente na sociedade contemporânea globalizada, apontada sobretudo pelos críticos da pós-modernidade – a fragmentação e superficialidade no enfoque das matrizes culturais. O grupo acredita que, para propor uma releitura do choro, precisa munir-se de um profundo conhecimento de suas características. Por isso, desde 2001, pesquisa a história e a linguagem do gênero em toda a sua diversidade. E fundamenta, dessa pesquisa, sua produção.

O grupo preocupa-se também em compartilhar os resultados dessa pesquisa, e vem fazendo isso no decorrer de sua trajetória através de dezenas de workshops, apresentados em cidades como Porto Alegre, Curitiba, Florianópolis, Brasília, Campinas, entre outras.